Porque é que o avanço imparável da ciência e da aprendizagem na vivência colectiva não se traduzem em melhorias nas condições de vida em sociedade?
O sistema capitalista é bipolar, no que toca aos interesses do conjunto dos seus cidadãos.
Inventamos duas "sub-especies" de humanos na estrutura social. São pessoas diferentes pelos papeis que assumem na sociedade. O problema de fundo é que esses papeis projectam interesses contraditórios que combatem entre si.
- Da grande maioria que não tem acesso a meios de produção os interesses fundamentais residem na sobrevivência e em qualidade de vida. Isto significa: menos horas de trabalho, melhor renumeração, acesso à liberdade individual, saúde, justiça, mobilidade, educação, lazer, etc.
- Para quem tem meios de produção a sociedade pede que procurem o lucro e acumulem capital. Os interesses dos primeiros são bens adquiridos sem esforço pelos segundos (consequências de terem nascido numa classe exploradora).
Estes dois tipos de interesses - infelizmente enraizados e ainda aceites como naturais - tem o problema de se oporem tremendamente. Analisando a realidade vemos facilmente aparecerem exemplos da luta entre os dois:
- A criação de um sistema de transportes publicos eficiente melhora a qualidade de vida da maioria das pessoas mas elimina possibilidades de maximização do lucro por parte das empresas petroliferas, sector privado dos transportes, fabrico automovel, exploração de auto-estradas, etc.
- Mais tempo de trabalho por menos renumeração significa simultaneamente uma vantagem para quem procura o lucro e uma desvantagem para quem persegue qualidade de vida. Aliás tudo o que são infraestruturas publicas são limitações ao interesse de realização de lucro e acumulação de capital.
- A edificação com materiais de qualidade e pensada para a eficiência energética usa conhecimentos mais que adquiridos e debatidos mas não estão postas em prática pelo poder que tem em afectar o lucro de empresas construtoras, de distribuição energética, agentes especuladores, etc.
Um outro reflexo da manifestação de contradição constante entre estes dois grupos de interesses são a muito debatida "pouca qualidade da classe política". Muitos decisores politicos mostram constantemente irresponsabilidade, falsa empatia, dão a sensação de terem a criatividade amputada, incoerência ao longo do tempo, vazio ou contradições ideológicas, ausência de sentido histórico e de visões para o futuro, fuga ao argumento e à discussão e uso da retórica e manipulação mediática. Uma explicação para tantos politicos encaixarem nessa descrição é a existência de partidos liderados por defensores dos interesses da minoria capitalista e exploradora. Ao mesmo tempo que, para chegar ao poder, tem de ganhar a confiança e o voto de uma maioria de população explorada.
"Tempo é dinheiro" mas é também - a nivel individual - o bem mais precioso que existe. Todos sabemos da necessidade de ver chegar a hora de despegar, a folga ou o fim de semana.
Se as regras do jogo para a sobrevivência e qualidade de vida são a troca de tempo de vida por realização de trabalho renumerado, então há que estar vigilantes quanto ao nivel de exploração que é imposto.
Esta troca desigual só pode ser aceitável numa lógica de desenvolvimento social.
É o trabalho que cria riqueza. Mas só a luta da classe trabalhadora é que pode garantir que essa riqueza será posta ao serviço de todos os cidadãos. Para esta maioria, que contribui com o seu trabalho, DESENVOLVIMENTO significa que o retorno do seu esforço se traduz em melhores condições de vida à medida que se avança no tempo.

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